quinta-feira, 8 de outubro de 2009

"O melhor chanceler do mundo"

Das notícias que não saem na mídia brasileira (por que será?).

(Clique na foto para entrar na reportagem original da Foreign Policy)

Por David Hothkopf (tradução enviada por H. C. Paes, para o Blog do Nassif)

Este pode ter sido o melhor mês para o Brasil desde, aproximadamente, junho de 1944. Foi quando o Tratado de Tordesilhas foi assinado, garantindo a Portugal tudo no Novo Mundo a leste de uma linha imaginária que se declarou existir a 370 léguas a oeste do arquipélago de Cabo Verde. Isso assegurou aquilo que viria a se tornar o Brasil português e, portanto, desenvolveria uma cultura e uma identidade muito diferentes do resto da América Latina Hispânica. Isso garantiu que o mundo tivesse samba, churrasco, a “Garota de Ipanema” e, por uma série de eventos incrivelmente fortuita, posto que tortuosa, Gisele Bündchen.

Embora tenha levado algum tempo para o Brasil corresponder à máxima dúbia de que era “o país do futuro e sempre o seria”, restam poucas dúvidas de que o amanhã chegou para o país, mesmo que ainda reste muito por fazer para superar suas sérias contingências sociais e aproveitar seu extraordinário potencial econômico.

As evidências de que algo novo e importante estava acontecendo no Brasil começaram a se acumular anos atrás, quando o então presidente Cardoso engendrou uma mudança rumo à ortodoxia econômica que estabilizou um país sacudido por ciclos de expansão e queda e assombrosa inflação. Elas ganharam vulto, entretanto, no decurso do extraordinário mandato do atual presidente do País, Luís Inácio Lula da Silva.

Parte desse vigor se deve ao compromisso de Lula com a manutenção dos fundamentos econômicos lançados por Cardoso, uma manobra política corajosa para um líder trabalhista de longa data que pertence ao Partido dos Trabalhadores, até então na oposição. Parte se deve à sorte, uma mudança global do paradigma energético que ajudou os trinta anos de investimento brasileiro em biocombustíveis a começar a valer a pena – e de novas e importantes formas -; descobertas de jazidas de petróleo de grande porte no mar territorial brasileiro; e a demanda crescente da Ásia que permitiu ao Brasil se tornar um líder nas exportações agrícolas globais e assumir o papel de “provedor da Ásia”. Porém, muito dessa pujança se deve à grande tarimba dos líderes brasileiros em aproveitar uma conjuntura que muitos de seus predecessores teriam provavelmente desperdiçado.

Dentre esses líderes, muito do crédito vai para o presidente Lula, que se tornou meio que um astro do rock no cenário internacional, ao amalgamar energia, iniciativa, carisma, intuição incomum e sensatez de forma tão eficaz que sua falta de educação formal jamais foi um empecilho. Algum mérito vai para membros de seu gabinete, como sua ministra-chefe da Casa Civil Dilma Rousseff, antes titular das Minas e Energia, que se tornou uma chefe de gabinete durona e possível sucessora de Lula. Mas acredito que um bom quinhão deva caber a Celso Amorim, que orquestrou uma transformação do papel mundial do Brasil quase sem precedentes históricos. Ele é o chanceler de Lula desde 2003 (tendo ocupado o cargo nos anos noventa), mas creio ser possível demonstrar que ele é, atualmente, o ministro do exterior mais bem sucedido do planeta.

É impossível identificar apenas um momento crucial nos esforços de Amorim em metamorfosear o Brasil, de poder regional dormente de proeminência internacional questionável, em um dos mais importantes protagonistas do cenário global, reconhecido por consenso como possuidor de um papel de liderança inaudito. Pode ter sido quando o ministro teve um papel central em arquitetar a rejeição, pelos países emergentes, de uma jogada de poder do tipo “nada de novo”, por parte dos Estados Unidos e da Europa, durante a rodada de tratativas comerciais de Cancun em 2003. Pode ter sido o modo arguto como os brasileiros têm usado distinções como sua liderança em biocombustíveis para estabelecer novas pontes de diálogo e influência, seja com os Estados Unidos, seja com outras potências emergentes. Certamente, esse processo envolveu a determinação de Amorim em abraçar a idéia de converter os BRICs, antes apenas um acrônimo, numa importante instância geopolítica de colaboração, trabalhando com seus colegas na Rússia, na Índia e na China para institucionalizar o diálogo entre os países e harmonizar suas declarações. (Pode-se discutir a afirmativa de que o BRIC que mais ganhou com essa aliança seja o Brasil. Rússia, China e Índia merecem lugar à mesa em função do poderio militar, do peso demográfico, da força econômica ou dos recursos naturais. O Brasil possui todos esses atributos… mas em menor grau que os outros.) Também envolveu outras incontáveis peças de estratégia diplomática, que vão dos laços aprofundados e estreitados do Brasil com países como a China e o fomento tanto do fluxo de investimentos como de uma reputação de porto comparativamente seguro na turbulência econômica global; à afinidade mútua entre o novo presidente dos Estados Unidos e seu colega brasileiro – a ponto de o primeiro incentivar o último a servir de mediador, por exemplo, com os Iranianos. Concorde-se ou não com cada um de seus lances em searas como Honduras ou a OEA na questão cubana, o Brasil continua a desempenhar um papel regional importante, ainda que seja evidente que seu foco se deslocou para a cena global.

Nada ilustra tão bem a distância percorrida pelo Brasil ou a eficácia do time Lula-Amorim do que os eventos das últimas semanas. Primeiro, a decisão pelos países do mundo de descartar o G8 e abraçar o G20, assegurando ao Brasil um lugar permanente na mais importante mesa de negociações do mundo. Depois, o Brasil se tornou o primeiro país na América Latina a ganhar o direito de sediar os Jogos Olímpicos. O Financial Times de ontem noticiou que “A Ásia e o Brasil lideram o crescimento na confiança do consumidor”, um reflexo da reputação que o País tem vendido com sucesso (com a maior parte do mérito indo para o ressurgente setor privado brasileiro). Acrescente-se a isso as reportagens desta semana sobre o encontro FMI-Banco Mundial em Istambul, que demonstram, com a concordância em mudar a estrutura do Fundo Monetário Internacional, uma institucionalização ainda maior do novo papel do Brasil. Segundo o Washington Post de hoje, “As nações também concordaram, em caráter preliminar, em reformular a estrutura de votos nacionais do Fundo, prometendo um arcabouço que aumente a representatividade de gigantes emergentes como o Brasil e a China por volta de janeiro de 2011”.

Nada mal para alguns dias de trabalho. E conquanto seja o Ministério da Fazenda brasileiro que tenha assento no encontro de Istambul, o arquiteto inconteste desta notável transformação do papel do Brasil é Amorim.

Muito trabalho resta por fazer, é claro. Parte dele tem a ver como o novo papel que foi moldado. O Brasil quer um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas e um papel de liderança maior em outros organismos internacionais. Pode ser que os consiga, mas tem de manter seu crescimento e sua estabilidade para chegar lá. Ademais, o Brasil parece inclinado a minimizar ameaças regionais tais como a venezuelana. (Brasileiros tendem a tratar com condescendência os vizinhos ao norte quase tanto quanto os amigos argentinos ao sul… e assim eles subestimam a habilidade que têm homens como Hugo Chávez de cometer grandes estragos.) E eles terão uma eleição em breve que pode mudar o elenco de líderes e, naturalmente, mudar a atual trajetória de várias maneiras – boas e ruins.

Mas é difícil achar outro ministro das relações exteriores que tenha orquestrado com tanta eficácia uma transformação de tal magnitude do papel internacional de seu país. E é por isso que, se me pedissem hoje que depositasse meu voto para melhor chanceler do mundo, ele seria provavelmente para aquele filho nativo de Santos, Celso Amorim.

domingo, 4 de outubro de 2009

Fórmulas para o Descasamento

Na linguagem literária:

Quando se conheceram, se apaixonaram pelo que eram;

Quando se casaram, prometeram ser um só;

No casamento, foram cedendo cada vez mais de si pelo outro;

Um dia, ele não era mais ele, e ela não era mais ela;

Um dois agora eram um só: um ente desconhecido por ambos;

Quando perceberam, já estavam esgotados;

Quando decidiram acabar, estavam aliviados.


Na linguagem matemática:

Se 1 + 1 = 2, e depois 2 = 1, então 2 = 0;
Mas se 1 + 1 = 2, e depois 2 = 1 + 1, então 2 > 0.



Inspirado nas belas e instrutivas palavras de Camila Furtado, em Ele e Ela, cuja leitura eu recomendo para todos que estão num relacionamento ou em vias de entrar em um.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Ricos gastam em três dias o que pobres levam um ano para gastar

Por Pedro Peduzzi - Repórter da Agência Brasil

Brasília - No Brasil, o que um pobre gasta em um ano é o mesmo gasto por um rico - que faz parte de 1% da população - em três dias. A constatação é do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que divulgou hoje (24) uma análise com base nos dados apresentados na semana passada pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) relativa ao ano de 2008.

“Apesar de estar registrando desde 2001 queda da desigualdade social num ritmo realmente bom, o Brasil ainda é um monumento à desigualdade. Aqui, uma família considerada pobre leva um ano para gastar o mesmo que o 1% mais rico gasta em apenas três dias”, informa o pesquisador do Ipea, Sergei Soares.

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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Newsweek: "O político mais popular do mundo"


sábado, 19 de setembro de 2009

Apresentando um novo artista

Quero lhes apresentar um escritor novo que está começando a se expressar publicamente agora. Seu nome é Vitor Vieira. Trata-se de um jovem que ainda está cursando o ensino médio aqui em Fortaleza. Conheci algumas de suas obras (além de escrever, ele desenha, atua, toca violão e canta) através de sua mãe, a Fátima, companheira de trabalho aqui no Colégio Christus Pré-Universitário. No primeiro poema dele que li, já percebi sua grande sensibilidade e talento que, se desenvolvidos com persistência, poderão transformá-lo num grande artista.

Para conhecer o blog Vertiginosas Metamorfoses, de Vitor Vieira, clique aqui.

sábado, 12 de setembro de 2009

Aparece, amor!

Ó, amor escondido,
Por quanto mais tempo
Me negarás teu abrigo?

Até onde o cimento
Me passará do pescoço,
Eu jogado ao relento?

Até quando o desgosto
Me ferirá a garganta,
A decepar o meu rosto?

Até onde a gastança
Em processos cirúrgicos
De acalmar essa ânsia?

Até quando tão trágico
Esse meu resto de vida
Nesse amor proibido?

Ó, amor separado,
Quem foi que nos cortou,
Esse deus tão descuidado?

Com qual brasa nos marcou
Em sinais de nascença?
Que destino nos legou?

De que vale minha crença,
Se você, que é milagre,
Não me cura da doença?

De que vale ir ao padre,
Se já pago meus pecados
Por amar-te sem alarde?

Com qual sorte vão os dados
Se meu prêmio não existe,
Se tu não o fazes fato?

Ó, amor, se me assistes,
Não alargues a ferida,
Vem fazer valer a vida!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Desmascarando-me (parte 9)

(Publicado originalmente no blog Autores S/A)

Eu: Estamos na semana da Independência. Que tal falarmos sobre o assunto?
Sidarta: Sim, é um assunto muito importante para nós. O tema rendeu ótimas discussões aqui no blog: orgulho ou vergonha de ser brasileiro, nossas qualidades e defeitos, brasilidade... No último domingo, o presidente fez um pronunciamento à Nação sobre a questão do Pré-Sal, enfatizando sua importância para os destinos do Brasil e como fonte de uma nova independência. Acrescento a tudo isso uma constatação para juntarmos neste liquidificador reflexivo: neste feriadão do 7 de Setembro, boa parte de nós (inclusive eu) foi curtir esses dias na praia ou no campo, longe de casa, longe dos problemas do dia-a-dia, inclusive de qualquer discussão sobre o tema da “Independência”. Diferente do que os estadunidenses, por exemplo (já que gostamos tanto da cultura deles), fazem em seu 4 de Julho.

Eu: O que você quer dizer com isso?
Sidarta: Em primeiro lugar, acho perfeitamente normal essa fuga e desinteresse pelo tema. Isso nos mostra que ainda não digerimos direito essa história de “Independência”. Não a valorizamos porque não merece ser valorizada mesmo. Aquele acontecimento histórico não. Será que conquistamos mesmo essa tal “Independência”? O que aprendemos na escola, da história protagonizada por um português chamado Pedro (que no final das contas ainda voltou para Portugal), não pode mesmo ser objeto de orgulho para nós brasileiros. Eu mesmo gostaria de entender melhor esta história, como tudo aconteceu. Mas o tema da independência é bem mais amplo do que somente aquele momento específico envolvendo D. Pedro. Envolve toda a luta (ou paciência) do povo brasileiro em sua busca por autonomia, nesses mais de cinco séculos de Brasil. Saímos de uma dependência de Portugal, para depois passarmos a depender da Inglaterra (me corrijam se eu estiver errado), e por último dos EUA. Foram poucos os momentos de nossa História em que ousamos tentar andar com as próprias pernas. Talvez com Getúlio e Juscelino, e depois com Jango, processo este que foi violentamente abortado pela ditadura militar, período dos mais tristes da História do Brasil, mas que alguns chegaram recentemente a chamar de “ditabranda”.

Só agora, com Lula, a gente pôde retornar com esse antigo projeto. O Brasil está se redemocratizando, e povo mais pobre vai sentindo que tem voz e vez, aprendendo a votar cada vez melhor (ou menos ruim), à medida que tem mais acesso à educação, à saúde, ao trabalho, ao crédito, à justiça, e principalmente à informação nos mais diversos meios (o acesso à internet pode nos fazer menos dependentes da grande mídia?). Por isso que, quando o Lula vai à TV falar da importância do Pré-Sal, da importância de esta riqueza ser gerida unicamente por uma empresa brasileira, de controle público, onde os lucros provenientes da extração do nosso petróleo possam realmente ser investidos na educação, na cultura, na ciência e tecnologia, no meio ambiente e no combate à pobreza, nós precisamos prestar atenção no que o presidente diz, goste-se ou não dele. Porque estamos falando de um tesouro descoberto em nosso território, e que é nosso, do povo brasileiro. Precisamos nos aprofundar nesta questão, conhecer os diversos pontos de vista, os fervorosos discursos contra e a favor da proposta do governo, em que ela consiste e os interesses por trás de todos os lados. Esta pode ser a nossa grande oportunidade para darmos um salto como nação. Falo de darmos um grande passo em direção à autonomia.

Eu: Você fala de independência, dependência, autonomia... O que são estas palavras, pra você?
Sidarta: Vou interpretar livremente as palavras em si, numa relação com o mundo atual, tanto no nível individual como no nível coletivo, de uma forma não acadêmica, mas sidartista (risos).

Dependência é quando eu não sou sujeito, sou objeto de uso. Quando eu dependo fisicamente, e/ou materialmente, financeiramente, emocionalmente, intelectualmente, psicologicamente, espiritualmente, etceteramente de alguém ou de uma instituição ou de um país. Eu não ando com minhas próprias pernas, não penso com minha própria cabeça, não me sinto dono do meu destino, o que abre as portas para que eu seja escravizado, colonizado, explorado, extorquido. Estou sempre necessitando de alguém que me guie, que me ajude, que me dê dinheiro, porque eu não sei fazer sozinho nem em grupo. Enquanto a dependência está apenas numa doença ou na infância e na adolescência da pessoa tudo bem, porque trata-se de uma coisa natural. Mas quando persiste num adulto saudável, se torna uma patologia psicológica/social.

Por outro lado, a independência também não é boa, porque dá a falsa impressão de que, tendo conhecimento, tendo poder, tendo riquezas materiais, eu não dependo de ninguém, não preciso de ninguém, e sou portanto autossuficiente, e não devo satisfações sobre minhas ações nem me preocupo com suas possíveis consequências. O resultado disso em níveis coletivos é o capitalismo predatório quase que institucionalizado em que vivemos. Por me sentir superior, permito-me explorar os outros, e me sinto poderoso por ter outras pessoas ou nações dependendo de mim. Quando esse fogo da independência aparece na adolescência pode ajudar muito na autodescoberta, mas pode também tender a um comportamento egoísta e sem limites na fase adulta, descambando para todos os tipos de violência.

Para superarmos essas duas realidades que mutuamente se alimentam no mundo atual, precisamos buscar uma autonomia interdependente, tanto entre indivíduos, quanto entre nações. Quando educada para buscar uma autonomia interdependente, a pessoa aprende sobre a complexidade da vida; a conhecer criticamente a si mesma, o local e o mundo em que vive; aprende a sonhar e a buscar realizar sonhos pessoais e coletivos; aprende a andar nesse mundo com suas próprias pernas; a utilizar a própria consciência como guia; aprende a encontrar o seu papel na sociedade e o seu lugar de tripulante que lhe cabe na espaçonave Terra. Há, na autonomia interdependente, o reconhecimento de que ninguém é autossuficiente, ou seja: que todos e todas precisam colaborar e receber ajuda para conviver e viver em harmonia com os animais, os vegetais, os minerais, com o planeta enfim. Nesse contexto, não há espaço para a exploração, mas existe o respeito às diferenças: o estímulo à individualidade empreendedora não atrapalha, e sim fortalece a coletividade social, e vice-versa. O todo pensando no bem do um e o um buscando a harmonia do todo.

Eu: Não é uma utopia?
Sidarta: Sim, mas é exatamente disso que precisamos: sonhar um sonho pessoal que se encaixe num sonho planetário.

Eu: O que esse tema tem a ver com você?
Sidarta: Vivo nesse conflito entre dependência e independência. Aos 34 anos, ainda moro com minha mãe. Não é uma situação para me orgulhar. Mas adquiri uma maneira muito própria de pensar, e gosto disso. O que desejo agora é buscar ser mais coerente com o que penso e sinto, adquirindo de fato minha autonomia. Não é fácil. A estrada é longa, está toda por construir ainda. Estou tentando, experimentando coisas novas.

Eu: Você não está lento demais nessa caminhada?
Sidarta: Estou sim, reconheço. Mas eu sou capricorniano, eu vou procurando devagar, mas quando me encontro, deslancho. Só preciso realizar mais, para ganhar segurança.

Eu: E se fracassar? E se você chegar nos finalmente e perceber que estava errado com relação a essa sua visão da vida?
Sidarta: Sabe, eu me sentiria muito mais frustrado se chegasse no fim com todas essas ideias, tendo família e um bom dinheiro, mas arrependido por não ter tentado praticar minhas reais vocações, não ter buscado realizar meus sonhos. Acredito que nunca é tarde pra tanto. Por isso que, se eu tentar viver agora minha vocação e fracassar, me sentirei feliz por ter tentado, e deixarei no meu epitáfio: “Escrever é fácil, viver é difícil”. Mas se tudo der certo, sairá assim: “Escrever e viver são difíceis, mas valem a pena e a angústia”.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Sobre o "se"

Se...
Palavra pequena,
De cores e insinuações,
De possibilidades e lamentos,
De vários tormentos

Se...
Palavra que lembra,
Que vislumbra,
Que acende e nos rende,
Palavra que teima

Se...
Palavra-poema,
De mil imaginações,
Que gira em torno,
Palavra ao forno

Se...
Senão palavra,
Se entre palavra e ação,
Se sim ou se não,
Ou quem sabe talvez

Se...


Inspirado no poema “Se...”, de Camila Furtado.

sábado, 5 de setembro de 2009

Pré-sal: use-o ou perca-o

O que eles dizem é:
.
Mas do que eles tem medo é:

Clique nas imagens acima para começar a conhecer
dois pontos de vista diferentes sobre o Pré-Sal.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Participe conosco do debate sobre a brasilidade

Que tal aproveitar a Semana da "Independência"
para participar de um debate sobre a brasilidade?

Convido você a clicar nos links abaixo para entrar
na discussão, onde estão inseridos todos os textos
e postagens sobre o tema do blog Autores S/A.

Será com enorme satisfação
que receberemos sua contribuição.

"Orgulho de ser brasileira";
"
Abençoado por Deus e bonito por natureza".

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Desmascarando-me (parte 8)

Eu: Sua vida daria um livro?
Sidarta: Não, mas daria um miniconto. Daqueles que cabem em 140 caracteres. Um dia antes de morrer, mandarei minha biografia via SMS para os amigos.

Eu: E sua imaginação, daria nalgum livro?
Sidarta: Ah, aí sim. Precisaríamos de uma enciclopédia. Talvez seja por isso que tenho uma péssima memória. Meu hardware não suporta.

Eu: O que essa imaginação toda te traz de benefícios e inconvenientes? Você sabe?
Sidarta: Por um lado, estimula a criatividade. Meu antigo terapeuta me disse que eu tenho que estar sempre realizando alguma coisa, e se demorasse muito acabaria ficando mal. E é mesmo. O outro lado da moeda é que acabo me dispersando muito, atirando para todos os lados, e nunca me decidindo por nenhuma direção. Isso acontece comigo em todos os campos. Fico sempre pensando: “e se eu fosse por ali e não por aqui?”. Isso me mata. Me acostumei a desistir das coisas muito facilmente.

Eu: Fale-nos dessa constância sua, que você diz, sobre a desistência.
Sidarta: (pensa um pouco antes de responder) Mas sabe, vendo as coisas com os olhos de hoje, não vejo mais as minhas desistências do passado como tendo sido maus negócios. Desistir pode até ser bom, dependendo do que vier depois. Se eu não tivesse desistido da carreira de gerente no comércio, por exemplo, talvez estivesse bem de vida. Mas tenho certeza de que não estaria me realizando. Tenho aprendido que nada é bom ou mal em si. A gente é que lida com os acontecimentos de uma forma proveitosa ou não, independente do fato.

Eu: Um amigo seu uma vez lhe disse que você precisava passar pela experiência de persistir em algum projeto de vida até pelo menos fechar um ciclo. O que acha disso?
Sidarta: O problema é que tendo a ter mais entusiasmo no começo das coisas. Gosto mais de dar o pontapé inicial, fazer a inovação, porque dar continuidade já é uma segunda etapa do processo, quando se exige disciplina e firmeza. Sempre quero fazer as coisas do meu jeito. E gosto mais de estar criando do que mantendo. Eu sei que tenho que aprender a dar continuidade às coisas porque senão nunca chegarei a lugar nenhum. Mas é um trabalho difícil pra mim.

Eu: Engraçado você usar agora essa palavra: difícil. Será que é por isso mesmo, essa história toda (que é até charmosa) o motivo de suas desistências, ou é só aparecer uma grande dificuldade para te desmotivar?
Sidarta: Sim, é bem provável, bem possível. Realmente, historicamente tem a ver.

Eu: Por que você tende a desistir ao se deparar com as dificuldades, com as barreiras?
Sidarta: Sei lá, o nome já está dizendo...

Eu: Preguiça? Covardia?
Sidarta: Taí duas qualidades que eu não nego possuir.

Eu: Ou falta de crença em si mesmo?
Sidarta: Por que você faz perguntas que já contém em si as respostas?

Eu: O que você tem aprendido sobre o significado de viver, Sidarta?
Sidarta: Na teoria, né? Segundo Campbell, não há um sentido para a vida. Vivemos para ter a experiência de estar vivos, para experimentar o gosto da vida. Já Frankl vai dizer que não adianta perguntarmos pelo sentido da vida, porque ela é que nos pede uma resposta. Tenho vivido ultimamente em busca de uma causa perdida. Só agora começo a pensar se a própria procura por sentido não já seja essa resposta, se conseguirmos experimentar essa caminhada de uma forma única e intimamente nossa, saboreando a vida com todos os temperos e condimentos que ela possui, seja salgado, doce ou amargo. O corpo se fortalece nos exercícios físicos, a alma diante das dificuldades emocionais.

Eu: Tem sempre que fechar com uma frase de efeito. Algum agradecimento, mandar beijinho pra alguém?
Sidarta: (risos) Incrível como o meu Eu interior é tem senso de humor. Quero mandar o meu abraço a todos que se identificam comigo nestas angústias todas.

Eu: Boa noite. Que você se abençoe dos deuses.
Sidarta: Noite boa. Que os deuses que me restam continuem pacientes.

Pelas profundezas da ilusão

Ele, que vivia
questionando a superficialidade,
passou a vida boiando.

Mandala nossa

Admiro essa tua maneira
Essa maneira de olhar
Com teus olhos antes tristes
Que faziam lágrimas de cristal
E eu, mesmo me vendo em ti
Me afastei dessa riqueza

Hoje ouço nossa canção
Aquela que fala de um tempo
Uma época esquecida
Eu canto repetidas vezes
Sem saber os porquês
De toda essa saudade

Só agora te vejo sorrir
E sei que estás feliz
Meu bem, eu entendo
Quero ver-te realizada
Quanto a mim, eu não sei
Mas eu vou levando

Se o mundo dá voltas
Nos contornos da vida
Quem sabe o amanhã
Um dia repare essa dor
De nos negar a chance
Um encontro sequer

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Semear - Israel Albino



Tenho escutado esta música várias vezes por dia ultimamente. Ela me foi sugerida por minha amiga e escritora Dani Santos, do Paraná. Apreciem.

Semear (Israel Albino)

Vou semear meus sonhos
Pelos cantos do país
Por aldeias, cidades, quintais,
Grandes avenidas.

E se um menino vier me falar,
Mostrar seu espanto
Frente à imensidão,
Lhe darei a mão, a voz
E as notas do meu violão,
Do meu violão.

Vou falar da mulher
Dedicada, devota ou profana
Que apesar das feridas,
Assim como eu, ama.

E se o receio calar sua voz,
Frear os impulsos,
Negar as paixões,
Ousará romper os limites
Antes que os sofrer?
Segue o coração.
Segue o seu coração.

Viver é se doar,
Dividir amores
E, se de tanto querer,
Um dia chorar...

Vento, que move a vela no mar,
No chão levanta a poeira
E varrerá as folhas secas em teu peito.
Qual a dor
No peito de um cantador?

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Estreando na revista eletrônica Veredas

Veredas é uma revista mensal dedicada
a publicação de minicontos em língua portuguesa.

Um muro que (ainda) não caiu

(Foto de Damião Lopes, publicado no Blog do Nassif)

A arte esquecida da caligrafia

Por Umberto Eco

Recentemente, dois jornalistas italianos escreveram um artigo de jornal em três páginas (portanto, impresso) sobre o declínio da caligrafia.

A esta altura já se sabe: A maioria das crianças - com o uso dos computadores e mensagens de texto via celular - não sabe mais escrever à mão, a não ser em suadas letras maiúsculas.

Um professor disse em uma entrevista que os alunos também cometem inúmeros erros de ortografia, o que revela um outro problema: Médicos sabem ortografia, mas escrevem mal; e até o mais experiente calígrafo pode escrever "concerto" em vez de "conserto"...

Clique aqui para continuar lendo em Terra Magazine.


Sugestão minha: Deveríamos voltar o costume de trocar cartas...

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Do amor entre artistas

Um amor só
Para esses dois não basta.

Por isso multiplicam-se.
Para sentirem mais falta
Que gere mais saudade,
E por sua vez mais vontade
De se verem e se amarem.

Uma vida só
Para esses dois não basta.


Inspirado na saudade pintada por Thalita.
Que a arte continue diminuindo as distâncias.

domingo, 30 de agosto de 2009

Esperanças, essas meninas levadas

Esperanças, essas meninas levadas.
Gostam de aparecer e fugir.
Para que a gente corra,
Para que a gente pegue,
E para se perderem de novo.

Esperanças, essas meninas levadas.
Gostam de fazer perguntas,
Que a gente preste contas,
E que sejam sucintas,
Ficando elas ali atentas,
Nos deixando até as tantas.

Esperanças, essas meninas levadas.
Um dia veio o Presente
E roubou minhas lembranças.
E levou também as meninas Esperanças.
As fez desaparecer, mas deixou-me um presente:
Um espelho.

Esperanças, essas meninas levadas.


Inspirado em:
Num dia em que a esperança se perdeu na chuva
de Dani Santos.

A crise do despertar

A rastejante e triste lagarta, quando entra em crise, se transforma em crisálida. Fechada em si mesma, adentrando no seu mais íntimo mundo, no mais fundo do oceano de seu ser, ela encontra-se num sonho. Nele descobre que foi feita para voar. Quando acorda, entretanto, vê uma dura casca em torno de si. Tenta quebrá-la, mas não consegue. Insiste, mas é difícil. Quase desiste, porém percebe que seu novo corpinho precisa de forças. E então entende o motivo daquela crosta, que ali não estava à toa. Agora é hora de persistir: é preciso perseguir o novo horizonte vislumbrado no sonho. Com muito esforço, aos poucos a casca vai cedendo, abrindo...

Passados alguns dias,
a ex-lagarta consegue se libertar.
Voa, borboleta, em direção ao sol
que há de o teu suor secar!


Inspirado no poema-desabafo de Karininha,
e publicado como comentário no blog Autores S/A.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Iniciando minha participação em outro blog

Estou começando a participar do blog de escritores abaixo. Acessem:

domingo, 23 de agosto de 2009

Conceitos sidartistas

Felicidade: um amor platônico e persistente.
Tristeza: um casamento forçado e sem contrato.
Alegria: um beijo prazerosamente roubado.
Saudade: uma fotografia querendo reviver.
Separação: uma carta de alforria nem sempre festejada.
Fora: uma comprovação de falta de sintonia ou um “venha depois”.
Solidão: um encontro com o espelho.
Deus: um diálogo (ou monólogo) constante.
Poesia: uma impressão digital do coração.
Perdão: uma chave para uma prisão.
Dinheiro: um meio que se disfarçou de fim.
Trabalho: uma Gênese em miniatura.
Vocação: uma chama aqui dentro, um incêndio lá fora.
Profissão: um papel a se cumprir na tripulação da espaçonave Terra.
Política: um jogo tragicômico, porém inescapável.
Filosofia: um caminhar atento a tudo, dentro e fora.
Música: uma ponte para a fantasia e a harmonia.
Dança: um flutuar até as nuvens.
Família: um refúgio aconchegante.
Amor: uma coisa que só se dá quando se tem por dentro.
Destino: um planejamento invisível cheio de pistas visíveis.
Paixão: uma vontade inabalável de viver.
Vício: um carrapato difícil de soltar.
Sofrimento: uma descida ao subsolo de si mesmo.
Dor: um sinal amarelo acionado pela natureza.
Fracasso: as primeiras páginas de um livro.
Sucesso: o último capítulo de um romance.
Sonho: uma carta criptografada do eu para mim.
Verdade: um ponto no centro do infinito.
Mentira: uma máscara que mascara outra máscara, que mascara outra, até o infinito verdadeiro.
Tangerina: uma fruta-vida para se descascar e saborear um dia de cada vez.

Coletânea de pensamentos madrugais

O pior não é quando se acaba um amor.
Pior é quando se perde o sono por isso.

A paixão é uma rosa cheia de espinhos.
É preciso saber onde se pegar.

No amor, a pessoa certa não existe.
Aliás, existe: é você mesmo(a).

Pelo sim, pelo não, mantenha sempre o coração aberto. Receba tudo o que vier. E nunca julgue um acontecimento no mesmo dia. Tente aguardar a próxima estação para ver os resultados.

Entenda se nem todo mundo tem coragem
para dizer o que realmente pensa.
Mas nunca seja covarde consigo mesmo(a).

Se “tudo o que é bom dura pouco”,
por que a vida precisa ser tão longa?
Talvez para que eu veja
as horas primeiro pelos segundos.

A solidão é mais sentida quando
há dois travesseiros e uma só cabeça.
Se bem que um eu posso usar por entre as pernas,
como recomendam os ortopedistas.

Quanto mais escrevo,
mais acalmo meu coração.
Todo poeta é cardíaco.

Se “a inspiração vem de fora
e a motivação vem de dentro”,
agradeço a todos que me inspiram
a ter motivos para viver.

Transbordamento

Quando estou amando e sendo correspondido, tenho pouco tempo para escrever. Quando volto à condição normal de estar sozinho, volto a ser poeta. Um dia me conscientizo de que meu único relacionamento possível é com a poesia.

A promoção

— E aí, cara, como vai o namoro?
— Ela me promoveu a amigo.
— Amigo? Mas isso não seria um rebaixamento?
— Independente de se gostar ou não, toda vida nova é uma promoção.

sábado, 22 de agosto de 2009

A gente se vê por aqui?

Por Henrique

Sexta-feira. 21 de agosto de 2009.

Trecho do aparte da senadora Marina Silva (sem partido-AC) ao discurso do senador Pedro Simon (PMDB-RS):

— A mesma posição eu vou manter aqui em relação ao Presidente Lula, porque não é uma questão de circunstâncias. Hoje, meu querido Senador Simon, tem uma matéria no jornal O Globo que não foi feita por nenhum desses jornalistas que nos acompanham aqui. Foi um correspondente lá do Estado do Pará que colocou na primeira página algo que é inteiramente incoerente com tudo o que eu disse e coloquei na carta que assinei embaixo. A manchete é a de que eu disse que o Governo é insensível para as questões sociais. E pega uma série de frases de uma palestra que dei, em um contexto de uma análise que eu faço da Amazônia, da questão das hidroelétricas, e as coloca ali. Digamos que, quanto às frases pinçadas, mal direcionadas, ainda vá lá. Mas dizer que eu, Marina Silva, disse que o Governo do Presidente Lula é insensível às questões sociais! Eu que já disse, inúmeras vezes, desta tribuna e em todas as manifestações que fiz, que foi a melhor política social que tivemos; que saímos de R$8 bilhões para R$30 bilhões investidos em política social.

Leia mais no Blog do Nassif.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Miniconto sobre a cegueira

Estava tudo certo, tudo claro, quando de repente aquele breu.
— Ai meu Deus! Estou cego! Estou cego!
— Cego nada, rapaz! Fui eu que apaguei a luz.

sábado, 15 de agosto de 2009

O mar

O mar. Olho pra todos os lados. O mar. Por todos esses anos, o mar. Estou sozinho, eu e o mar. Em todos os lados, o mesmo horizonte vazio. Estou só, eu e o mar. Já naveguei em todas as direções, e as estrelas me trapacearam esse tempo todo. Até o sol. Este fez conluio com o mar. Por isso estou só, eu e o mar.

Ontem eu tive um sonho, boiando no mar. Foi quando você me apareceu. No começo, apenas um ponto no horizonte, no mar. A princípio não acreditei, achei que estava começando a ficar cego, devido toda aquela água salgada, do mar. Mas você foi se ampliando, se ampliando, até que se postasse à minha frente, no mar. Ainda assim não acreditei, até que você me tocou a face, você numa jangada e eu no mar. E então me puxou, metade de mim, do mar para aquele pequeno pedaço de madeira. Senti seu calor beijado em minha face, o que por um momento me salvou, mas logo lembrei das águas balançando minhas pernas, e não tive forças para subir até você, do mar. No desespero acordei sem você, e volto para o meu sempre mar.

Estou novamente aqui, o mar e eu. E a memória do seu beijo me salvando por um instante desse mar fechado em mim. Eu, a ilha. Você, um horizonte imaginário por todos os lados. Que faço agora sem você? Que faço agora nesse mar? Só há mar! Só há mar!

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Uma chamada para o Céu

— Pai, por que o Senhor fez a vida tão difícil?
— ...
— Reformulando: por que a minha vida é tão difícil?
— ...
— Quer dizer... Por que eu sou tão difícil de viver?
— ...
— Ou sou eu que estou colocando dificuldades na vida?
— ...
—Por que o Senhor não me responde?
— ...
— Por que me deixa aqui a falar sozinho?
— ...
— Será que o Senhor existe mesmo?
— ...
— E se tudo isso que aprendi a Seu respeito não passar de invenção humana?
— ...
— Talvez seja. Deus é uma criação humana para que possamos lidar com nossas dores. Sem a idéia de Deus a humanidade não conseguiria evoluir, não conseguiria lidar com as adversidades. Por isso que, biologicamente, o cérebro precisa desta imagem neurológica. Por instinto de sobrevivência, nós criamos Tu, criatura. Tu, o Criador. Que tens a dizer disto?
— ...
— Eu sabia que não poderias falar. Nada mais és do que fruto de minha imaginação. Mas agora que descobri Tua verdade (ou falsidade) científica, o que faço eu? A quem recorro?
— ...
— Estou cansado de tanto silêncio, de conversar com o vazio. É como me olhar no espelho: meus movimentos sempre refletem, minhas perguntas sempre voltam. Cada vez mais, sinto que só eu posso me entender, só eu posso oferecer respostas satisfatórias. Ou não. Meus olhos não mostram minha alma. E se ela não existir de verdade? E se a morte apagar tudo, sendo de fato o fim?
— ...
— Quem sou eu? O que estou fazendo aqui?
— ...
— Algumas pessoas vivem muito bem sem essas respostas. Ou talvez as tenham. E vivam. Ou não. Mas o fato é que vivem, e muitas vivem felizes. Por que não eu?
— ...
— Pois bem. Ao invés de fazer perguntas para fora, as farei a partir de agora para dentro. Não procurarei mais nenhum Deus no universo, a não ser o de dentro de mim. E se houver algo habitando aí que apareça, e que apareça logo, ou eu o farei aparecer... Vivo ou morto... Combinado?
— ...
— Ah, meu Deus, eu tenho tanto o que fazer... Mas o que devo fazer?
— ...
— Tantas coisas a fazer... Já sei qual a primeira. Vou pedir desculpas a ela. Ela vai entender o meu caso, a minha situação, e porque lhe disse aquilo tudo. Mas e se não der certo?
— ...
— Bem, se não der certo, eu não morrerei por causa disso. Mas eu tenho que tentar. Por Deus, eu tenho que tentar! Aliás, eu tenho que tentar tudo! Em tudo!
— ...
— É isso... meus créditos irão acabar. Preciso desligar agora, ok?
— ...
— Obrigado pelos conselhos. Adeus.

Quem é rei nunca perde a majestade

— Espelho, espelho meu, existe alguém mais fracassado do que eu?
— Existe sim, Vossa Majestade.
— Mostra-me.
E no espelho apareceu a imagem de um homem desfigurado, solitário, amargurado, miserável.
— Mas este... este sou eu!
— Não, Vossa Majestade. Este SERÁ você. Amanhã.